domingo, 1 de fevereiro de 2015

O que nos cala


 
O silêncio, ouro de tolo a ornar corações emudecidos pela sem-razão de existir, multiplica-se pelas esquinas do tempo. Tão difícil voltar de longas ausências, porque a tarde nos cala, esticada na ponta dos pés para estender nossa letargia. Não fazer, não escrever, apesar da mente em ebulição.

Quietude cultivada, que também pode nascer do assombro com o de repente, que leva ao medo, à dor ou à alegria, cirandando entre os cacos de gente e notícias, quebradas na urgência do dizer.

Algumas vezes, o que nos cala empresta ao silêncio uma melodia, como um beijo de amor, que rouba o fôlego ao som do coração em sol maior. Em outras, é o tédio que dificulta a fala, a mente viajando, abrigada de conversas chatas e ziguezagueantes. A função fática no piloto automático para dar sinal de vida.

Uma voz pode ainda ser roubada por outras vozes, por gritos de quem não sabe argumentar ou pelos argumentos irrefutáveis de quem nunca precisou gritar. E há os que nos calam mesmo distantes, mudos, apenas com o aceno de uma crítica mordaz ou um ar de superioridade, diante de nossa inevitável imperfeição.

Com gravidade, nós nos calamos, circunscritos em nossas neuras e inseguranças, e fazendo do silêncio escudo, postergamos a palavra para dias mais azuis.

          O próprio silêncio nos cala, com suas trancas nas portas das casas, dos corações, da razão, da vida.

E apesar disso, deixamos que a palavra ouse, inefável, por todos os nossos sentidos, precipitando-se (des)propositadamente para o mundo, porque o que nos cala é também o que nos faz falar.

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