quarta-feira, 15 de maio de 2013

Anjo torto


Quando Carlos nasceu, uma andorinha de pés tortos pousou sobre o parapeito da janela e piou comprido, numa língua que só ela parecia entender. Mas o recado estava dado e a sina do menino traçada: Vai, Carlos ser gauche na vida!
Carlos cresceu espiando o mundo de soslaio, incapaz de se encaixar na forma que moldava todos os outros. Na escola repetia de ano por não se ater ao quadro negro, seu lápis percorrendo caminhos tão diferentes dos desenhados pelo giz. A poesia estava lá fora, na chuva, nas pedras do caminho, no canto da andorinha...
Mas era preciso crescer e crescer significava adaptar-se. Tentou. Aos 20 anos, arrumou um emprego. Empoleirado no telefone, recitava frases prontas para vender seguros. A morte multifacetada transformada num chavão.
Noivou, na esperança de que o amor o salvasse do vazio, mas o coração vasto não se preenchia com um romance superficial.
Para comemorar mais um passo para longe de si, embebedou-se de lua e conhaque, dançou, festejou e, por fim, rendeu-se ao sono no banco de uma praça qualquer. Sonhou que estava preso em uma gaiola no meio do nada. Do lado de fora, um pássaro voava baixo, cantarolando. Só pode ser deboche, pensou com gana de matá-lo, mas, então, ele se aproximou.
Era o anjo torto feito andorinha. Seu canto desenhava magicamente um mapa. O xis não marcava tesouros, mas o segredo de sua vida. Quem sou eu? Por que não me encaixo neste mundo? Dúvidas que agrilhoavam seu espírito. Despertou, decidido a se aventurar por causa do sonho e apesar dele.
Embarcou no primeiro trem para o nada. Estava lotado de pernas, braços e mentes imprensadas. Não se importou. Quinze minutos depois, um homem atrás dos óculos e do bigode o avisou da chegada à estação.
Andou sem rumo, quase arrependido de dar ouvidos ao pássaro estúpido. De repente, deu de cara com um barranco. Desceu aos tropeços e seguiu em frente pelo chão curvo e enlameado. Era o caminho traçado para ele desde o início, agora o sabia. Levara uma hora e três tombos até aquele momento, mas tudo seria esquecido e mesmo comemorado se, ao final, encontrasse a resposta desejada.
Com uma pá na mão e uma obsessão na mente, cavava, cavava e cavaria até o centro da Terra se preciso fosse. Isso pensava, mas a realidade é sempre outra e o brilho sempre menor. Por isso, sentou-se ao cair da última folha da árvore solitária e lamuriosa.
Caído também, naquele instante, viu passar uma andorinha, como sombra da vida num segundo ilusório. Não tinha pés, perdera-os numa armadilha do destino, espalhada aos montes pelo caminho. Doía-lhe pensar na crueldade dos homens, doía-lhe pensar no seu próprio egoísmo, que ia apagando aos poucos essa imagem para se preocupar consigo mesmo mais sossegadamente.
Refeito do cansaço abandonou qualquer remorso e retornou à sua missão: cavou, cavou, recavou e concluiu que não havia nada ali, senão lama, lama, lama. Sentiu-se traído por seu sonho... tão real.
Viu-se só, sem estrela e sem galáxia, no silêncio da noite eterna, até ouvir as batidas de um coração e o grito da ave. Levantou-se para correr na direção do som, que não era outra senão o ponto em que começara a cavar. Fez das mãos conchas, e das conchas enterradas na terra, surgiu sua verdade, seu segredo, eram os pés tortos da andorinha.

2 comentários:

  1. Você estava inspirada,hein garota! Texto fantástico! Você não é aprendiz de escritora, é uma escritora nata!! PARABÉNS!! GRANDE ABRAÇO!!

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    1. Obrigada pelo incentivo, Juca! Fico feliz que tenha gostado. Abraço.

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