sábado, 28 de julho de 2012

A maldade de cada dia


Esta semana, no Skate Park, em Madureira, zona oeste do Rio, um guarda municipal derrubou um adolescente no momento em que ele fazia manobras na pista. O agente da lei justificou a agressão, alegando que o jovem poderia machucar alguém ao saltar, ou seja, antes que o menino ferisse um espectador em um lugar reservado às manobras, ele tratou de freá-lo pondo o pé na frente.
Na era Big Brother, o gesto foi obviamente filmado e chocou a população, porque não é algo que se espere de quem deveria nos proteger. O garoto sofreu ferimentos leves, mas nem sempre as pequenas maldades cotidianas terminam bem. Lembro-me do caso de um garoto que morreu de tétano depois que um colega colocou (por brincadeira!?!) uma bombinha no capuz de seu casaco...

Às vezes, penso que as pessoas têm síndrome de Tom e Jerry, achando que a vítima vai sair ilesa após ser atingida na cabeça por pianos, bigornas e afins. Ou simplesmente não ligam se o outro se ferir só para lhes render boas risadas (ou um gostinho de dever cumprido, no caso do guarda).
Enfim, seja por inconsequência ou má índole alheia, estamos sempre sujeitos à maldade de cada dia.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Arte indomável



O poema abaixo foi escrito para participação em um concurso literário em homenagem às arpilleras chilenas, artesãs que, utilizando uma tradicional técnica têxtil, denunciavam o terror da ditadura de Pinochet (1973-1990).

Arte indomável
                                      

No Chile acorrentado, a justiça se enterra com os mortos sem nome,
As moiras cortam, insensíveis, o fio da vida de quem se rebela.

Para sobreviver, é preciso calar.
Mas os corações inquietos, logrando o destino,

Insurgem-se em cores pela liberdade ausente.
Para viver, é preciso bordar.

Retalhos coloridos entrelaçam-se,
Ousando gritar a dor engasgada:

Onde estão meu marido, meu filho, meus direitos, minha verdade?
A arte indomável viaja pelo mundo,

Vencendo o silêncio para testemunhar.
E a história acinzentada pelo medo

Colore-se, nas mãos das mulheres artesãs,
Arpilleras de sonhos e de coragem.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A caverna


As sombras em nossa caverna projetam ilusões alimentadas pela chama da acomodação.
Aceitamos a miséria alheia como parte da paisagem, a corrupção como pedágio para um governo, o desserviço público como martírio necessário à salvação.
Desamor, desonestidade, descaso: condutas reproduzidas por muitos de seus mais acirrados críticos.
Num mundo desconcertado, vez ou outra nos surpreendermos com atitudes de honra e generosidade: gente com quase nada devolvendo consideráveis somas de dinheiro encontradas ao léu, autoridades recusando suborno, pessoas se doando pelo bem-estar de outrem...
  
E ficamos com a impressão de que a parte do mundo que consegue espreitar além das sombras eventualmente se faz ouvir, explicitando os equívocos arraigados na sociedade e renovando nossa esperança nos homens.