sábado, 30 de junho de 2012

A quase felicidade


A expressão inconsolável de um copeiro ilustrou esta semana as páginas dos principais jornais do Rio. Há anos, o funcionário participava de um bolão da loteria com colegas de trabalho e, justamente no dia em que se privou de concorrer, a aposta foi premiada e cada colega recebeu R$ 635 mil. A história dos ganhadores reescrita pela sorte.

Na vida do copeiro, nada muda, além da indisfarçável tristeza por tudo o que poderia ter sido e não foi. “Para atingir faltou-me um golpe de asa,/ se ao menos eu permanecesse aquém”, irrompem os versos de Mário de Sá Carneiro, que expressam a dor da quase felicidade.

Uma decisão errada, uma oportunidade perdida, e o castelo de cartas desaba impiedosamente diante de seus olhos. O pobre copeiro continua pobre.

Mas decisões precisam ser tomadas diariamente e, na falta de bolas de cristal, arriscamos sins e nãos, conforme nossa consciência, nossas condições, a lua, a maré... De vez em quando, acertamos.

Dos erros, só devemos levar o aprendizado decorrente. Frustração e arrependimento pesam excessivamente e nos prendem cada vez mais a lugar algum. E já que não podemos mudar o passado, o melhor mesmo é seguirmos em frente.

sábado, 16 de junho de 2012

A que por enquanto


Estava relendo “Fita verde no cabelo”, belíssimo conto de Guimarães Rosa, no qual, em intertextualidade com “Chapeuzinho Vermelho”, narra o processo de amadurecimento de uma menina sem juízo, com uma fita verde inventada no cabelo.
O que sempre me chamou a atenção nesse texto, além do lirismo e da expressividade neológica, é como ele inicialmente define a protagonista: “a que por enquanto”.
A que por enquanto é inocente, que escolhe o caminho louco e longo e se diverte com “inalcançar” as borboletas. A que por enquanto se permite ser feliz e inteira até que a fita imaginária desate diante da crua realidade.
Até que tudo mude de repente, somos os que por enquanto.
Por ora, vida de faz de conta, mil e uma possibilidades; outrora, sonhos guardados na gaveta, estradas para lugar algum. Por ora, juras de amor, fé, alegria; outrora, promessas quebradas, descrença, pesar. Ou vice-versa.
Apreciamos ou suportamos o instante apesar de sua fugacidade ou por causa dela e nos reinventamos constantemente estrada afora, diante do imprevisível, sempre à espreita.
Porque é preciso sobreviver ao lobo, porque é preciso sobreviver ao tédio, porque para sempre é tempo demais.

sábado, 2 de junho de 2012

O sono dos esquecidos


Sonhos sujos e rotos adormecidos nas calçadas, na madrugada de um dia qualquer. Ignorados solenemente pela gente que passa, aprisionada pela rotina. Não é permitido desviar o olhar da meta artificialmente traçada. Não por que se corra o risco de se desintegrar, mas de se perceber que já não se é mais inteiro.

Há tempos que já não o somos, que nos perdemos de nós no labirinto humano. Quanta coisa ficou para trás para que pudéssemos seguir em frente?

Realmente seguimos em frente ou apenas cirandamos na mesmice cotidiana?

Meia-volta, volta e meia, embalados pelo relógio, absoluto...

Mas o ritmo é impossível para os sonhos, feitos de nuvem e desejo. Desengonçados, deixam a roda em desencanto e se abandonam às margens do caminho para dormir para sempre o sono dos esquecidos.