domingo, 21 de outubro de 2012

A arte douradiana



Faleceu no último dia 30 o romancista mineiro Autran Dourado. Detentor de uma obra de inegável expressividade no panorama literário, o autor recebeu, em 2000, o Prêmio Camões pelo conjunto da obra, atribuído anualmente ao melhor autor de Língua Portuguesa. Sua notoriedade alcançou nível internacional com a tradução de alguns de seus trabalhos para o francês, alemão, inglês e espanhol, figurando em antologias publicadas na Alemanha, Suíça e Venezuela. Destacam-se, ainda, a adoção do romance Os sinos da agonia para os exames de agregação das universidades francesas e a seleção de Ópera dos mortos para integrar a Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal.

Foi em uma de minhas andanças pela biblioteca da faculdade de Letras (ainda no século passado), que me deparei pela primeira vez com um livro de Autran Dourado: A barca dos homens. O titulo inusitado ganhou minha atenção e logo mergulhava na densa história da perseguição a Fortunato, deficiente mental, acusado de ter roubado uma arma de fogo.
Ambientada em uma ilha, a velocidade narrativa é influenciada não só pelo desenrolar dos acontecimentos, mas também pelo ritmo do mar, ora manso, a ninar os pescadores, ora revolto, no prenúncio da tempestade de emoções, lembranças e segredos.

Enfeitiçada pelo estilo douradiano, deleitei-me com sua obra. Da prosa simples de Uma vida em segredo ao estilo rebuscado de Ópera dos mortos descobri no autor uma multiplicidade de estilos. A cada tema uma abordagem narrativa diferente com uma riqueza de recursos, que lhe conferiam inigualável expressividade.

Modesto, o escritor sempre procurou desmitificar seu fazer literário, demonstrando que sua arte era, sobretudo, artesanal, cuidando de selecionar e aplicar a matéria, apurando-a até alcançar o contorno aspirado.

Em Uma poética de romance, por exemplo, afirmava ter escrito mais de mil páginas para chegar às duzentas de A barca dos homens. Trabalha, e teima, e lima, e sua, mas não como o ourives; nosso artista fez-se carpinteiro, ambicionando a simplicidade de construir velhos baús para revelar seus tesouros a quem os souber abrir. Fica o convite!

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