segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Nosso tempo...


Mais um ano que se afasta. Deveres cumpridos. Promessas engavetadas. À meia-noite, positividade, desejos e oferendas para o futuro.

Mas o hoje é todo o tempo que temos. O ontem são águas a iludir moinhos. O amanhã, quimeras lançadas ao vento...

Ainda assim, enclausurar-se no agora me parece tão grave quanto se deixar deter nos tempos idos e vindouros.

Porque somos feitos inevitavelmente de possibilidades, sonhos e histórias. Tempo que ganhamos, perdemos, matamos, transcendemos.

E nos (des)equilibramos em suas engrenagens e tiquetaqueamos no seu ritmo e nos (des)medimos por sua lógica.

Porque, incorrigivelmente humanos, vivemos, tememos, ansiamos e saudamos cada passagem de nossa transitória eternidade.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O que fizemos do Natal



Natal...
_ Oferta-relâmpago: três camisas pelo preço de uma!
Corre-corre, empurra-empurra: _ Essa é minha, já peguei!
 
Natal...
A caixinha do lixeiro, do carteiro, do porteiro...
Não é tempo de ser sovina.
 
Natal...
Olhos grudados na vitrine.
O menino sonha acordado com um Papai Noel mais justo.
 
Natal...
A família reunida para a ceia.
Comida farta, parente farto, sai falando mal do panetone, que a anfitriã serviu.
 
Natal...
Alguém oferece baixinho uma oração para o Cristo.
E no Céu os anjos entoam cânticos de paz e esperança.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Ao poeta, as curvas


Falecido na última quarta-feira, Oscar Niemeyer, ícone da arquitetura brasileira, deixa como legado a ousadia de imprimir no áspero concreto a sinuosidade de sua imaginação.
A magnitude criativa de uma cidade, a delicadeza de uma flor ofertada à Paris, a revolução de uma escultura exibindo em vermelho-sangue a América Latina... A cada obra, enfim, a beleza surpreendente de quem não se deixou aprisionar pelo senso comum.
Engana-se, no entanto, quem pensa que o arquiteto curvava a inflexibilidade das retas, eram elas que se curvavam à sua genialidade.
Em uma de suas entrevistas ao jornal O Globo, afirmou Niemeyer: “Eu queria uma arquitetura que não fosse, não lembrasse, uma arquitetura feita com régua e esquadro. Uma arquitetura assim com mais fantasia. Cada um faz o que quer e assim que eu faço a minha”.
Tenho para mim que é esse o principal fator a distinguir os gênios das pessoas comuns: a busca indócil pelo impensado sem se importar com as imposições que costumam embarreirar os demais.
E Niemeyer foi, sem dúvida, um desses espíritos audaciosos, sendo capaz de romper com o óbvio e converter em poesia a sobriedade urbana.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dúvidas...


A semana nem terminou e já me deixou cheia de dúvidas, que preciso dividir com vocês:

1-   Por que os defensores de que o Estado, legalmente laico, também o seja na prática lutam para se retirar das cédulas de real a frase “Deus seja louvado”, mas não por se extinguirem os inúmeros feriados referentes a manifestações religiosas e, em última análise, o próprio carnaval (concessão da Igreja Católica aos prazeres da carne, em razão do período de privações da Quaresma)?

 2-  O ministro Dias Toffoli afirmou que, no caso do Mensalão, foram cometidos delitos com objetivo financeiro, não de violência, e por isso não seria pedagógico colocar os condenados na prisão.

Então, por que, no mês passado, um delegado de Maceió concluiu que um homem, acusado de furtar leite em um supermercado para saciar a fome da filha, merecia a cadeia?

 3-   E, afinal de contas, onde Neymar estava mirando ao bater o pênalti no jogo contra a Colômbia? Nas nuvens, nos refletores do estádio ou no bom senso brasileiro, perdido em algum lugar entre os dois?

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A metamorfose


 
Já está disponível no site da Editora Saída de Emergência a Revista Bang n 13, que traz o meu miniconto " A Metamorfose", selecionado em um concurso literário.

Quem quiser conferir a edição na íntegra pode fazer o download gratuito no link: http://www.saidadeemergencia.com/produto/-o-202434/revista-bang-o-202437/revista-bang-no13-ebook/

 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Incompletude



Insuficientes. O dinheiro. O status. O amor. A vida. A constante busca por mais e mais e mais. E então, frustração. O mundo tão cheio de cavadores do infinito e tão vazio do mundo que deveria importar.

As lacunas nos são inerentes, é preciso conviver com elas. Aprender a ser feliz na incompletude não significa acomodar-se, mas valorizar o que se tem, o que se é.

Há quem cisme em esfregar na cara alheia uma perfeição “botoxicada”. Keep calm, a grama do vizinho não é tão verde assim.

Todos evoluem a seu tempo, a seu modo. E deixar-se guiar pela lâmpada dos sonhos não é de todo ruim sem a ânsia e os soluços pelo impossível. 


domingo, 21 de outubro de 2012

A arte douradiana



Faleceu no último dia 30 o romancista mineiro Autran Dourado. Detentor de uma obra de inegável expressividade no panorama literário, o autor recebeu, em 2000, o Prêmio Camões pelo conjunto da obra, atribuído anualmente ao melhor autor de Língua Portuguesa. Sua notoriedade alcançou nível internacional com a tradução de alguns de seus trabalhos para o francês, alemão, inglês e espanhol, figurando em antologias publicadas na Alemanha, Suíça e Venezuela. Destacam-se, ainda, a adoção do romance Os sinos da agonia para os exames de agregação das universidades francesas e a seleção de Ópera dos mortos para integrar a Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal.

Foi em uma de minhas andanças pela biblioteca da faculdade de Letras (ainda no século passado), que me deparei pela primeira vez com um livro de Autran Dourado: A barca dos homens. O titulo inusitado ganhou minha atenção e logo mergulhava na densa história da perseguição a Fortunato, deficiente mental, acusado de ter roubado uma arma de fogo.
Ambientada em uma ilha, a velocidade narrativa é influenciada não só pelo desenrolar dos acontecimentos, mas também pelo ritmo do mar, ora manso, a ninar os pescadores, ora revolto, no prenúncio da tempestade de emoções, lembranças e segredos.

Enfeitiçada pelo estilo douradiano, deleitei-me com sua obra. Da prosa simples de Uma vida em segredo ao estilo rebuscado de Ópera dos mortos descobri no autor uma multiplicidade de estilos. A cada tema uma abordagem narrativa diferente com uma riqueza de recursos, que lhe conferiam inigualável expressividade.

Modesto, o escritor sempre procurou desmitificar seu fazer literário, demonstrando que sua arte era, sobretudo, artesanal, cuidando de selecionar e aplicar a matéria, apurando-a até alcançar o contorno aspirado.

Em Uma poética de romance, por exemplo, afirmava ter escrito mais de mil páginas para chegar às duzentas de A barca dos homens. Trabalha, e teima, e lima, e sua, mas não como o ourives; nosso artista fez-se carpinteiro, ambicionando a simplicidade de construir velhos baús para revelar seus tesouros a quem os souber abrir. Fica o convite!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Retratos da democracia


Os eleitores. Esperança verde e sorriso amarelo, fé cega e pé atrás.

Os candidatos. Propostas concretas, promessas vazias e muito blá-blá-blá na disputa pela preferência dos cidadãos.

As ruas. Poluídas por jingles de gosto duvidoso e santinhos (que ironia!) de fichas sujas e mal lavadas.

As urnas. Votos conscientes, irrefletidos ou negociados (a peso de ouro ou banana) misturam-se no caldeirão democrático.

A apuração. Dedos cruzados por (quase um milagre!) governantes decentes.

sábado, 22 de setembro de 2012

Desamor


Quando a tempestade se for

e a dor se desanuviar

e os incautos sacudirem a água do corpo encharcado

e a indiferença escoar esgoto abaixo

e a primeira pomba acenar com um raminho de esperança

e a vida correr, pular e escorregar nas lágrimas pelo caminho,

ainda seremos (e não seremos) os mesmos,

por dentro, por fora, por todos os lados,

sobreviventes do desamor.

sábado, 15 de setembro de 2012

Lua

À pequena Lua, minha filhinha de quatro patas, que hoje completa um ano.



Lua minguante ao léu tinha por reino o negrume dos sacos de lixo. Noite sem estrelas.
Lua novinha encantou quem se atreveu a se desvelar da indiferença e a acolher no coração.
Lua, carinho e fofura crescentes, amor incondicional.
Lua cheinha (de graça), anjo que Deus enviou para nos fazer sorrir.
 

domingo, 2 de setembro de 2012

Andarilho


 

Sob o nublado céu, vai um ser sem destino,
verdade indolor não almeja mais.
Perdeu-se no momento em que abriu os olhos
e já não pode fechá-los por medo da escuridão.

Sob a chuva que cai, o homem não corre,
a dor o abriga da vida.
E os raios não podem atingi-lo
enquanto sua mente estiver lá.

Sob o sol que se põe, algo o espera:
o desconhecido a romper com o medo.
A alma, num rompante alada, alça voo
 
tão alto que se confunde com as estrelas...
E os dois seguem lado a lado
porque não há mais amanhã.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sonhos


Ainda num momento micropoético, segue minha primeira experiência com o haicai, poesia de origem japonesa, que valoriza a concisão e a objetividade. Espero que gostem!



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Desalento














 



Formiga rainha,

sem rei nem coroa.

Tão triste e sozinha,

rainha à toa.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Alvorada











 

 
Aves em alvoroço
festejam mais um renascer.
Cantem ou calem,
eu sei que valem o amanhecer.

sábado, 28 de julho de 2012

A maldade de cada dia


Esta semana, no Skate Park, em Madureira, zona oeste do Rio, um guarda municipal derrubou um adolescente no momento em que ele fazia manobras na pista. O agente da lei justificou a agressão, alegando que o jovem poderia machucar alguém ao saltar, ou seja, antes que o menino ferisse um espectador em um lugar reservado às manobras, ele tratou de freá-lo pondo o pé na frente.
Na era Big Brother, o gesto foi obviamente filmado e chocou a população, porque não é algo que se espere de quem deveria nos proteger. O garoto sofreu ferimentos leves, mas nem sempre as pequenas maldades cotidianas terminam bem. Lembro-me do caso de um garoto que morreu de tétano depois que um colega colocou (por brincadeira!?!) uma bombinha no capuz de seu casaco...

Às vezes, penso que as pessoas têm síndrome de Tom e Jerry, achando que a vítima vai sair ilesa após ser atingida na cabeça por pianos, bigornas e afins. Ou simplesmente não ligam se o outro se ferir só para lhes render boas risadas (ou um gostinho de dever cumprido, no caso do guarda).
Enfim, seja por inconsequência ou má índole alheia, estamos sempre sujeitos à maldade de cada dia.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Arte indomável



O poema abaixo foi escrito para participação em um concurso literário em homenagem às arpilleras chilenas, artesãs que, utilizando uma tradicional técnica têxtil, denunciavam o terror da ditadura de Pinochet (1973-1990).

Arte indomável
                                      

No Chile acorrentado, a justiça se enterra com os mortos sem nome,
As moiras cortam, insensíveis, o fio da vida de quem se rebela.

Para sobreviver, é preciso calar.
Mas os corações inquietos, logrando o destino,

Insurgem-se em cores pela liberdade ausente.
Para viver, é preciso bordar.

Retalhos coloridos entrelaçam-se,
Ousando gritar a dor engasgada:

Onde estão meu marido, meu filho, meus direitos, minha verdade?
A arte indomável viaja pelo mundo,

Vencendo o silêncio para testemunhar.
E a história acinzentada pelo medo

Colore-se, nas mãos das mulheres artesãs,
Arpilleras de sonhos e de coragem.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A caverna


As sombras em nossa caverna projetam ilusões alimentadas pela chama da acomodação.
Aceitamos a miséria alheia como parte da paisagem, a corrupção como pedágio para um governo, o desserviço público como martírio necessário à salvação.
Desamor, desonestidade, descaso: condutas reproduzidas por muitos de seus mais acirrados críticos.
Num mundo desconcertado, vez ou outra nos surpreendermos com atitudes de honra e generosidade: gente com quase nada devolvendo consideráveis somas de dinheiro encontradas ao léu, autoridades recusando suborno, pessoas se doando pelo bem-estar de outrem...
  
E ficamos com a impressão de que a parte do mundo que consegue espreitar além das sombras eventualmente se faz ouvir, explicitando os equívocos arraigados na sociedade e renovando nossa esperança nos homens.

sábado, 30 de junho de 2012

A quase felicidade


A expressão inconsolável de um copeiro ilustrou esta semana as páginas dos principais jornais do Rio. Há anos, o funcionário participava de um bolão da loteria com colegas de trabalho e, justamente no dia em que se privou de concorrer, a aposta foi premiada e cada colega recebeu R$ 635 mil. A história dos ganhadores reescrita pela sorte.

Na vida do copeiro, nada muda, além da indisfarçável tristeza por tudo o que poderia ter sido e não foi. “Para atingir faltou-me um golpe de asa,/ se ao menos eu permanecesse aquém”, irrompem os versos de Mário de Sá Carneiro, que expressam a dor da quase felicidade.

Uma decisão errada, uma oportunidade perdida, e o castelo de cartas desaba impiedosamente diante de seus olhos. O pobre copeiro continua pobre.

Mas decisões precisam ser tomadas diariamente e, na falta de bolas de cristal, arriscamos sins e nãos, conforme nossa consciência, nossas condições, a lua, a maré... De vez em quando, acertamos.

Dos erros, só devemos levar o aprendizado decorrente. Frustração e arrependimento pesam excessivamente e nos prendem cada vez mais a lugar algum. E já que não podemos mudar o passado, o melhor mesmo é seguirmos em frente.

sábado, 16 de junho de 2012

A que por enquanto


Estava relendo “Fita verde no cabelo”, belíssimo conto de Guimarães Rosa, no qual, em intertextualidade com “Chapeuzinho Vermelho”, narra o processo de amadurecimento de uma menina sem juízo, com uma fita verde inventada no cabelo.
O que sempre me chamou a atenção nesse texto, além do lirismo e da expressividade neológica, é como ele inicialmente define a protagonista: “a que por enquanto”.
A que por enquanto é inocente, que escolhe o caminho louco e longo e se diverte com “inalcançar” as borboletas. A que por enquanto se permite ser feliz e inteira até que a fita imaginária desate diante da crua realidade.
Até que tudo mude de repente, somos os que por enquanto.
Por ora, vida de faz de conta, mil e uma possibilidades; outrora, sonhos guardados na gaveta, estradas para lugar algum. Por ora, juras de amor, fé, alegria; outrora, promessas quebradas, descrença, pesar. Ou vice-versa.
Apreciamos ou suportamos o instante apesar de sua fugacidade ou por causa dela e nos reinventamos constantemente estrada afora, diante do imprevisível, sempre à espreita.
Porque é preciso sobreviver ao lobo, porque é preciso sobreviver ao tédio, porque para sempre é tempo demais.

sábado, 2 de junho de 2012

O sono dos esquecidos


Sonhos sujos e rotos adormecidos nas calçadas, na madrugada de um dia qualquer. Ignorados solenemente pela gente que passa, aprisionada pela rotina. Não é permitido desviar o olhar da meta artificialmente traçada. Não por que se corra o risco de se desintegrar, mas de se perceber que já não se é mais inteiro.

Há tempos que já não o somos, que nos perdemos de nós no labirinto humano. Quanta coisa ficou para trás para que pudéssemos seguir em frente?

Realmente seguimos em frente ou apenas cirandamos na mesmice cotidiana?

Meia-volta, volta e meia, embalados pelo relógio, absoluto...

Mas o ritmo é impossível para os sonhos, feitos de nuvem e desejo. Desengonçados, deixam a roda em desencanto e se abandonam às margens do caminho para dormir para sempre o sono dos esquecidos.

domingo, 20 de maio de 2012

A passageira ao lado


Dia desses entrei no ônibus, apressada, e me sentei no primeiro lugar vago que encontrei. De repente, comecei a ouvir a senhora ao meu lado sussurrar sinistramente:
_ Eu vou contar até dez, vou te dar só mais uma chance....

Olhei para ela, na esperança de ver um celular em suas mãos. Nada.
_ Um, dois, três ... _ continuou a estranha.

A mulher não era necessariamente louca ou perigosa, talvez fosse só alguém falando com seus botões. Afinal, a razão e a loucura caminham lado a lado, testando com frequência as frágeis fronteiras, que instituímos. Num mundo virado do avesso, quem pode alegar ser totalmente são?

O doutor Simão Bacamarte, protagonista de O Alienista, de Machado de Assis, depois de estudar detidamente a loucura e enclausurar toda uma cidade, acreditando-a demente, acabou por concluir que a verdadeira loucura era a sua suposta perfeição.

Mas, pelo sim pelo não, antes que a passageira ao lado pudesse completar a aterrorizante contagem, levantei-me com prudência e fui procurar um lugar seguro no fundo do ônibus.

domingo, 13 de maio de 2012

Homenagem ao dia das mães


Mãe, amizade, zelo, dedicação, carinho, fortaleza.
Minhas palavras tão indigentes, diante da dimensão do amor materno, buscam nos lindos versos de Mário Quintana, a expressão de seu significado, nessa singela homenagem ao dia das mães:

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Um poema em cada árvore

14/03/12 (Governador Valadares/MG)

Recebi ontem a foto do meu poema “Por causa da chuva”, selecionado para participar da 17ͣ  edição do projeto “Um poema em cada árvore”.

Idealizado pelo poeta Marcelo Rocha, o projeto visa a incentivar a leitura, utilizando o espaço público e as árvores de Governador Valadares para ampliar o acesso da população à poesia.

Em 2011, “Um poema em cada árvore” foi finalista do Prêmio Vivaleitura, uma iniciativa da OEI – Organização dos Estados Ibero-americanos, Ministério da Cultura, Ministério da Educação e Fundação Santillana (Espanha).

sábado, 5 de maio de 2012

Mentirosos


Os grandes mentirosos do cotidiano pregam sempre a mesma peça nos distraídos do coração alheio, que lançam inocentes a trágica pergunta: Tudo bem? Tudo bem, respondem uns, tudo ótimo, exageram os mais ousados, mentirosos crônicos.

Não os culpem. Eles aprenderam desde cedo a guardar para si todos os seus problemas e já não sabem distinguir entre o cumprimento superficial e o real interesse por seu bem-estar.

Recusam-se a serem os chatos que maculam com lamúrias a felicidade dos outros. E, para consolidar de vez a farsa, rasgam à força um largo sorriso no rosto. Só o olhar, delator incorrigível, mantém-se em eterno descompasso com a verdade inventada.

O olhar é luz sobre o palimpsesto da alma, revelando mistérios que ninguém se atreve a decifrar. Tão mais seguro ficar na superfície, não saber, não se envolver...
E os mentirosos continuam sua encenação de contentamento, enquanto desmoronam, por dentro, na solidão de sua dor.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O segredo das letras



Lembro-me da primeira vez que me deparei com um texto: manchinhas negras sobre o papel, que eu, num vão esforço, tentava decifrar. Sabia que havia algo de especial ali e aguardava ansiosa pelo momento de descobrir seu segredo.
Quando, finalmente, o aprendizado escolar me permitiu desvendá-lo, foi como se as letras abrissem de repente um portal mágico, convidando-me a adentrar num universo de infinitas possibilidades: o livro.
Cada livro é um caleidoscópio de histórias, sonhos e emoções, capaz de nos arrancar da mesmice cotidiana e nos conduzir por lugares, tempos e enlaces inimagináveis. De uma viagem guiada ao inferno ao encontro com Deus numa cabana, da burguesia carioca do século XIX à mitológica Terra Média, do amor impossível em Verona ao romance insólito em Forks.
Cada livro é uma janela para o mundo e para nós mesmos, compartilhando ideias e memórias, que nos permitem refletir e re(formar) criticamente nosso saber. Todos os ismos, herança das transformações socioculturais do homem, mostram-nos o caminho percorrido, alicerces do porvir.
Por isso, hoje, no dia mundial do livro, desejo a todos excelentes leituras de si, de livros e do mundo!


sábado, 21 de abril de 2012

Inspiração


Tento escrever. As ideias fogem desabaladas. A branquidão virtual à minha frente ri provocadora. Sabe que os dedos apenas passeiam sobre as letras sem destino e sem vontade.

Nem a janela modernosa do mundo nem as antigas e caprichosas musas sopram na minha direção o vento inspirador. Nem mesmo a natureza, a poesia (ou os fofoqueiros de plantão) foram capazes de lançar luz à falta de assunto e dissipar a inércia criadora.

O que fazer então? Seguir a vida e deixar o tempo arrastar-se, até que tratados de paz com as musas sejam selados ou definitivamente rompidos? “Viver não é necessário, o que é necessário é criar”, garante Fernando Pessoa.

Criem-se, portanto, acontecimentos desvairados, estilos transgressores, perspectivas singulares.

Fiat lux, verbum, vita!

Crie-se, enfim, uma razão para escrever.

domingo, 15 de abril de 2012

O homem quebrado



Não, não e não! Tão insistentes foram as negativas da vida que ele, sem poder mais se sustentar, despencou. Desastradamente. Quebrou-se sem nunca ter estado inteiro. Não tinha conserto, percebeu desconcertado. Não dessa vez. Viveria ou não viveria em pedaços.

No início, sentiu uma dor pungente, quase insuportável. Quando se acostumou à dor, veio a vergonha, faltava-lhe tanta coisa por dentro, por fora. A gente perfeita o olhava de soslaio e cochichava à sua passagem. Foi ele mesmo que procurou esse caminho torto e vacilante. Bem feito!

Para fugir do mundo, para fugir de si, o homem quebrado trancou-se numa caixa de madeira. Ficou lá por mais tempo do que podia contar, entregando-se à letargia desencantada. Um dia o vento soprou tão forte que o arrastou com caixa e tudo para um lugar muito distante. Antes que pudesse perceber onde estava, alguém o retirou cuidadosamente de seu esconderijo.

Era um homem gigantesco, mas não teve medo, parecia bondoso e extremamente sábio. De repente, todos os sentimentos adormecidos voltaram com força: dor, culpa, vergonha. Sentia-se mal por sua imperfeição.

_ Estou quebrado_ desculpou-se com humildade.

O desconhecido abriu um sorriso compreensivo e, como quem pronunciasse um encanto, capaz de libertá-lo de si e dos outros, explicou:

_ Não se preocupe, não há nada de errado em ser humano.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Resultado do primeiro sorteio do blog


Conforme anunciado, realizei hoje, às 21h, o sorteio do livro “Contos Fantásticos de Terror e Medo”. O sorteado foi:



Parabéns, Erick Tenello!!!
Entrarei em contato por email para solicitar o endereço para envio.
Obrigada a todos pela participação!!!

domingo, 8 de abril de 2012

Déjà vu: tragédia em Teresópolis


Depois da tempestade... mais tempestades...
E os dias melhores se escondem por trás de promessas esquecidas.
Foi apenas o alarme de chuvas que falhou?
A tragédia foi mesmo evitada?
A chuva lava ou leva a alma?
A vida mais uma vez soterrada,
Interrompida, desdenhada,
Por um mar de lama e hipocrisia.

domingo, 1 de abril de 2012

Conteúdo removido



Conteúdo removido do blog com fins de publicação.
Desculpe o transtorno.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Primeiro sorteio do blog



Na próxima semana o blog completará 3 meses!!!


Para comemorar, estou realizando nosso primeiro sorteio.



Sorteio do livro: Contos Fantásticos de Terror e Medo, da Litteris Editora.



 Veja as regras antes de se inscrever:


- Morar no Brasil

- Seguir publicamente o blog ou por email


- Preencher o formulário abaixo:



INSCRIÇÕES ENCERRADAS!
Chance extra:
_ Divulgue o banner do sorteio em seu blog e ganhe mais um número para concorrer:


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Prazo para participar:


- As inscrições serão encerradas no dia 13/04/12, às 20h.
- O sorteio será realizado no dia 13/04/12, às 21h, pelo site RANDOM.


Que tal ganhar um livro de contos de terror em uma Sexta-feira 13? Tente a sorte! Participe!!!